“Só
se veem mãos”, alguém disse atrás dele. Não olhou para trás.
Continuou pela calçada e via realmente as mãos, as palmas das mãos
trincadas e encardidas. Havia muita gente ali e de vez em quando
alguém surgia por detrás de uma senhora bem vestida. Alguém surgia
de surpresa, como se o aparecimento abrupto pudesse intimidá-lo;
chegava a tomar um susto; observava as batidas do coração, apertava
o próprio pulso e contava as batidas. E as mãos se movimentavam a
sua frente como um halterofilista a levantar pesos para reforçar o
bíceps. Mas as mãos ali eram frágeis, mal singravam a resistência
do ar. E eram mãos trêmulas. Mãos iguais às da quadra anterior,
que eram iguais às da rua anterior, da cidade anterior daquele mesmo
país. Arriscou olhar nos olhos de alguns. Eram olhos de piedade, os
mesmos do Cristo ao pedir água, estancado na cruz.

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