De longe teve a impressão de que ele iria saltar. O amigo vestiu o casaco preto para se camuflar na escuridão, se aproximar sorrateiramente e tentar, num bote certeiro, segurar-lhe o pé. Não podia segurar o sapato, que se desprenderia facilmente do corpo. Talvez a meia resistisse, a barra da calça... Teria de impingir uma força sobrenatural nas mãos a fim de sustentar o corpo dependurado. Planejava contar com a ajuda de alguém para içar o amigo, ainda que não houvesse ninguém ali, mas isso era secundário. Tinha a convicção de que o mundo é dos que pulam e dos que não pulam. Não tinha certeza se o propósito era emular a mãe, que se suicidara quinze anos antes, ou se era mesmo a dor insuperável pela falta dela ou pela própria insuportabilidade mundana. Como acontece com os que pulam, nunca há tempo de perguntar.
terça-feira, 9 de outubro de 2018
Parapeito [ficção]
De longe teve a impressão de que ele iria saltar. O amigo vestiu o casaco preto para se camuflar na escuridão, se aproximar sorrateiramente e tentar, num bote certeiro, segurar-lhe o pé. Não podia segurar o sapato, que se desprenderia facilmente do corpo. Talvez a meia resistisse, a barra da calça... Teria de impingir uma força sobrenatural nas mãos a fim de sustentar o corpo dependurado. Planejava contar com a ajuda de alguém para içar o amigo, ainda que não houvesse ninguém ali, mas isso era secundário. Tinha a convicção de que o mundo é dos que pulam e dos que não pulam. Não tinha certeza se o propósito era emular a mãe, que se suicidara quinze anos antes, ou se era mesmo a dor insuperável pela falta dela ou pela própria insuportabilidade mundana. Como acontece com os que pulam, nunca há tempo de perguntar.
segunda-feira, 8 de outubro de 2018
Recorte [ficção]
Ele congelou o tempo. Os olhos fixos naquela igreja e um outro que vinha ali lhe disse ‘boa tarde’ mas ele congelou o tempo naquela xícara de café, olhando de soslaio os paralelepípedos e o som dos pneus dos carros passando lentamente, tentando trazê-lo de volta, mas ele congelou o tempo no sabor daquele café e no gosto do vento. Não havia como o giro afoito do ponteiro de segundos demovê-lo nem a brisa fresca ameaçando esvoaçar as folhas pelo abismo nem as pessoas que passavam ali despercebidas daquele recorte, as mesmas pessoas que a cada segundo ficavam mais velhas, mas ele não. Ele congelou a imagem das pedras, das igrejas, aqueles poucos minutos de tempo estagnado que só ele recortou.
quinta-feira, 4 de outubro de 2018
As mãos [ficção]
“Só
se veem mãos”, alguém disse atrás dele. Não olhou para trás.
Continuou pela calçada e via realmente as mãos, as palmas das mãos
trincadas e encardidas. Havia muita gente ali e de vez em quando
alguém surgia por detrás de uma senhora bem vestida. Alguém surgia
de surpresa, como se o aparecimento abrupto pudesse intimidá-lo;
chegava a tomar um susto; observava as batidas do coração, apertava
o próprio pulso e contava as batidas. E as mãos se movimentavam a
sua frente como um halterofilista a levantar pesos para reforçar o
bíceps. Mas as mãos ali eram frágeis, mal singravam a resistência
do ar. E eram mãos trêmulas. Mãos iguais às da quadra anterior,
que eram iguais às da rua anterior, da cidade anterior daquele mesmo
país. Arriscou olhar nos olhos de alguns. Eram olhos de piedade, os
mesmos do Cristo ao pedir água, estancado na cruz.
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