terça-feira, 9 de outubro de 2018

Parapeito [ficção]



De longe teve a impressão de que ele iria saltar. O amigo vestiu o casaco preto para se camuflar na escuridão, se aproximar sorrateiramente e tentar, num bote certeiro, segurar-lhe o pé. Não podia segurar o sapato, que se desprenderia facilmente do corpo. Talvez a meia resistisse, a barra da calça... Teria de impingir uma força sobrenatural nas mãos a fim de sustentar o corpo dependurado. Planejava contar com a ajuda de alguém para içar o amigo, ainda que não houvesse ninguém ali, mas isso era secundário. Tinha a convicção de que o mundo é dos que pulam e dos que não pulam. Não tinha certeza se o propósito era emular a mãe, que se suicidara quinze anos antes, ou se era mesmo a dor insuperável pela falta dela ou pela própria insuportabilidade mundana. Como acontece com os que pulam, nunca há tempo de perguntar.

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