quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Calor [ficção]

Podia-se ver o sol ardendo no fim da rua os carros parados vidros fechados os motores ligados para manter o ar frio nessas cápsulas e ele caminhava do lado de fora com uma sandália de borracha cujas tiras se soltavam a toda hora um dos pares tinha apenas meia sola e ele caminhava no chão quente e a blusa ensopada de suor fétido e a calça cheirando a urina e ele caminhava no asfalto ardente e não havia para onde os carros se deslocarem nesse colapso blecaute e todos morreriam no calor os ratos saiam aos montes dos bueiros e não tinha água para todo mundo quando o céu ficou vermelho e um motorista arrancou a garrafa de água da mão de outro motorista que imediatamente matou o ladrão e se suicidou com a mesma arma provavelmente de tanto  calor e o ar ficava escasso e todos os papéis folhas troncos consumidos pelo fogo e queimaduras de primeiro grau na cidade sem árvores sem sombras e todo o combustível acabou de tanto produzir ar frio no interior dos veículos para tentar suportar a falta de sombra de água e era só fumaça do lado de fora no asfalto ardente e ele caminhava resignado sua pele trincava qual solo na seca do sertão e as baratas foram os últimos seres a morrer.

domingo, 12 de novembro de 2017

O bilhete [ficção]


Tentou esticar o braço o máximo que podia a fim de alcançar o bilhete sob o copo d’água. Já não sentia a ardência das feridas purulentas. Rendia-se à febre, às fraldas cheias de fezes, às meias de lã. Entregar o corpo a qualquer entidade metafísica o aliviaria, seria de certa forma uma vingança, como se dissesse “eis aí o que fizeram de mim”. Esticar o braço seria o último ato para alcançar o bilhete [rasgue tudo o que escrevi], a derradeira concomitância entre músculos, ossos, nervos que compunham as articulações de um autômato, buscando um movimento incerto. Tentou encher de ar os pulmões cheios de pus para oxigenar os músculos e imprimir o movimento. A água imóvel dentro do copo, o bilhete tão distante quanto miragem. A reprodução poída de Edvard Munch desesperado na parede poderia servir-lhe de espelho. O intento foi em vão. Mal tirou a mão do lençol, seu braço pendeu. A unha tocou o chão.

domingo, 5 de novembro de 2017

O sorriso [ficção]


Postou-se diante da tela para pintar o retrato do ditador. Sentado ao lado, um pouco atrás, o sanguinário esboçou de repente um largo sorriso incomum, inédito para o artista. Os dois seguranças olhavam para frente, segurando fuzis. O pintor temeu levar o mesmo destino do proctologista estrangeiro, morto a caminho do aeroporto após operar o mandatário. Respirou fundo para conter o tremor das mãos. Começou a pintar os olhos, o nariz, o cabelo ralo, as orelhas. Ocorreu-lhe um bloqueio nunca visto ao tentar esboçar na tela aquele sorriso falso. Os guardas já aparentavam impaciência ao notar as mãos agora trêmulas, amparando o pincel. Todos os esboços feitos a carvão estampavam lábios rudes. Resignou-se ao fracasso inevitável: a morte. Relaxou. Decidiu pôr em prática, como último ato, um chiste proveniente de suas lembranças infantis: pintou caprichosamente o sorriso não do ditador, mas da bocarra aberta do Coringa, maior algoz do Batman. Reforçou o vermelho dos lábios como se o ditador usasse batom. A caminho do aeroporto, os dois oficiais mantinham o olhar no horizonte, segurando fuzis. O pintor segurava com mãos úmidas o primeiro pincel, presente de seu pai, um amuleto. Desceu do carro em silêncio, adentrou pelos corredores do aeroporto sem olhar para trás e conseguiu embarcar.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

[Diário]

Minhas vistas pediam óculos havia uns dez anos. Sou torto: um olho consegue surfar nas menores letras, mas é incapaz de identificar a promoção exposta num cartaz de farmácia; o outro vê um urubu no fim da estrada mas não se decide entre um “a” ou um “e” num livro de Borges. Sou torto. As lentes corretivas, ao invés de deixar límpido o olhar, o reduz. Se antes eu via uma panorâmica embaçada, vejo agora tudo cristalino, porém reduzido, como num foco de lanterna. Sobraram-me 20 por cento de boa visão: um paradoxo: fui condenado pelas lentes a ver menos, ainda que consiga enfiar a linha no buraco da agulha. Sou torto. Para sempre.