domingo, 5 de novembro de 2017

O sorriso [ficção]


Postou-se diante da tela para pintar o retrato do ditador. Sentado ao lado, um pouco atrás, o sanguinário esboçou de repente um largo sorriso incomum, inédito para o artista. Os dois seguranças olhavam para frente, segurando fuzis. O pintor temeu levar o mesmo destino do proctologista estrangeiro, morto a caminho do aeroporto após operar o mandatário. Respirou fundo para conter o tremor das mãos. Começou a pintar os olhos, o nariz, o cabelo ralo, as orelhas. Ocorreu-lhe um bloqueio nunca visto ao tentar esboçar na tela aquele sorriso falso. Os guardas já aparentavam impaciência ao notar as mãos agora trêmulas, amparando o pincel. Todos os esboços feitos a carvão estampavam lábios rudes. Resignou-se ao fracasso inevitável: a morte. Relaxou. Decidiu pôr em prática, como último ato, um chiste proveniente de suas lembranças infantis: pintou caprichosamente o sorriso não do ditador, mas da bocarra aberta do Coringa, maior algoz do Batman. Reforçou o vermelho dos lábios como se o ditador usasse batom. A caminho do aeroporto, os dois oficiais mantinham o olhar no horizonte, segurando fuzis. O pintor segurava com mãos úmidas o primeiro pincel, presente de seu pai, um amuleto. Desceu do carro em silêncio, adentrou pelos corredores do aeroporto sem olhar para trás e conseguiu embarcar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário