Postou-se
diante da tela para pintar o retrato do ditador. Sentado ao lado, um
pouco atrás, o sanguinário esboçou de repente um largo sorriso
incomum, inédito para o artista. Os dois seguranças olhavam para
frente, segurando fuzis. O pintor temeu levar o mesmo destino do
proctologista estrangeiro, morto a caminho do aeroporto após operar
o mandatário. Respirou fundo para conter o tremor das mãos. Começou
a pintar os olhos, o nariz, o cabelo ralo, as orelhas. Ocorreu-lhe um
bloqueio nunca visto ao tentar esboçar na tela aquele sorriso falso.
Os guardas já aparentavam impaciência ao notar as mãos agora
trêmulas, amparando o pincel. Todos os esboços feitos a carvão
estampavam lábios rudes. Resignou-se ao fracasso inevitável: a
morte. Relaxou. Decidiu pôr em prática, como último ato, um chiste
proveniente de suas lembranças infantis: pintou caprichosamente o
sorriso não do ditador, mas da bocarra aberta do Coringa, maior
algoz do Batman. Reforçou o vermelho dos lábios como se o ditador
usasse batom. A caminho do aeroporto, os dois oficiais mantinham o
olhar no horizonte, segurando fuzis. O pintor segurava com mãos
úmidas o primeiro pincel, presente de seu pai, um amuleto. Desceu do
carro em silêncio, adentrou pelos corredores do aeroporto sem olhar
para trás e conseguiu embarcar.
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