quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Calor [ficção]

Podia-se ver o sol ardendo no fim da rua os carros parados vidros fechados os motores ligados para manter o ar frio nessas cápsulas e ele caminhava do lado de fora com uma sandália de borracha cujas tiras se soltavam a toda hora um dos pares tinha apenas meia sola e ele caminhava no chão quente e a blusa ensopada de suor fétido e a calça cheirando a urina e ele caminhava no asfalto ardente e não havia para onde os carros se deslocarem nesse colapso blecaute e todos morreriam no calor os ratos saiam aos montes dos bueiros e não tinha água para todo mundo quando o céu ficou vermelho e um motorista arrancou a garrafa de água da mão de outro motorista que imediatamente matou o ladrão e se suicidou com a mesma arma provavelmente de tanto  calor e o ar ficava escasso e todos os papéis folhas troncos consumidos pelo fogo e queimaduras de primeiro grau na cidade sem árvores sem sombras e todo o combustível acabou de tanto produzir ar frio no interior dos veículos para tentar suportar a falta de sombra de água e era só fumaça do lado de fora no asfalto ardente e ele caminhava resignado sua pele trincava qual solo na seca do sertão e as baratas foram os últimos seres a morrer.

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