quarta-feira, 1 de novembro de 2017

[Diário]

Minhas vistas pediam óculos havia uns dez anos. Sou torto: um olho consegue surfar nas menores letras, mas é incapaz de identificar a promoção exposta num cartaz de farmácia; o outro vê um urubu no fim da estrada mas não se decide entre um “a” ou um “e” num livro de Borges. Sou torto. As lentes corretivas, ao invés de deixar límpido o olhar, o reduz. Se antes eu via uma panorâmica embaçada, vejo agora tudo cristalino, porém reduzido, como num foco de lanterna. Sobraram-me 20 por cento de boa visão: um paradoxo: fui condenado pelas lentes a ver menos, ainda que consiga enfiar a linha no buraco da agulha. Sou torto. Para sempre.

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