Minhas
vistas pediam óculos havia uns dez anos. Sou torto: um olho consegue
surfar nas menores letras, mas é incapaz de identificar a promoção
exposta num cartaz de farmácia; o outro vê um urubu no fim da
estrada mas não se decide entre um “a” ou um “e” num livro
de Borges. Sou torto. As lentes corretivas, ao invés de deixar
límpido o olhar, o reduz. Se antes eu via uma panorâmica embaçada,
vejo agora tudo cristalino, porém reduzido, como num foco de
lanterna. Sobraram-me 20 por cento de boa visão: um paradoxo: fui
condenado pelas lentes a ver menos, ainda que consiga enfiar a linha
no buraco da agulha. Sou torto. Para sempre.
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