Pressupôs
que o delegado estivesse do outro lado da parede, em silêncio,
tentando captar o menor rumor possível. Teria de calcular a
espessura da parede e a quantidade de som que iria transpor o reboco,
os tijolos, a argamassa e o reboco do outro lado. Até aquele momento
a portinhola não tinha sido aberta para lhe entregar a refeição.
Suspeitou. Transpirou. Do chão ele podia avistar um cavalo atado a
uma carroça, aguardando o carregamento de areia. Uma criança, de
mãos dadas com a mãe, desfiava um algodão-doce com os dentes. Eram
vinte passos até lá. Virou para o irmão e agradeceu-lhe por tudo,
principalmente pela convivência na infância. A qualquer momento
alguém iria fechar a cela. Aquele cavalo estacionado era uma espécie
de ultimato. Beijou o irmão como nunca o fizera e disse: vá!

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