segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Recorte [ficção]

Ele congelou o tempo. Os olhos fixos naquela igreja e um outro que vinha ali lhe disse ‘boa tarde’ mas ele congelou o tempo naquela xícara de café, olhando de soslaio os paralelepípedos e o som dos pneus dos carros passando lentamente, tentando trazê-lo de volta, mas ele congelou o tempo no sabor daquele café e no gosto do vento. Não havia como o giro afoito do ponteiro de segundos demovê-lo nem a brisa fresca ameaçando esvoaçar as folhas pelo abismo nem as pessoas que passavam ali despercebidas daquele recorte, as mesmas pessoas que a cada segundo ficavam mais velhas, mas ele não. Ele congelou a imagem das pedras, das igrejas, aqueles poucos minutos de tempo estagnado que só ele recortou.

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